Daniel Bessa

Director-Geral da COTEC Portugal

Temos connosco as respostas à segunda iteração do Painel de Opinião incluído no Barómetro de Inovação da COTEC Portugal. Pretende-se, como se encontra anunciado, uma periodicidade semestral.

Conseguimos, desta vez, a totalidade das respostas dos 25 membros do Painel – que, assim, avança para a sua plena institucionalização.

O resultado mais esperado é a avaliação das políticas de inovação no nosso País. Aí está: é um 4 (mais rigorosamente, 4,3) numa escala de 1 (mínimo) a 7 (máximo); um 11 (um suficiente, fraquinho), na escala de zero a vinte valores em que fomos educados.

Responderam a este pedido de avaliação das políticas de inovação no nosso País 23 dos 25 membros do Painel (dois, não responderam). Há uma grande concentração no 5 (11 das 23 respostas) mas a generosidade do único membro do Painel que excedeu este valor (o 6 atribuído por Gonçalo Quadros) foi mais do que compensada pelo grau de exigência dos mais críticos (o 1 de João Caraça, o 2 de Diogo Vasconcelos e o 3 de José Manuel dos Santos).

Comparando com o resultado anterior, do mês de Dezembro, a evolução é ligeiramente positiva, de 4,2 para 4,3. João Picoito e Luís Portela estão ligeiramente menos satisfeitos (de 6 para 5) e Filipe de Botton está agora mais convencido do acerto das nossas políticas públicas em matéria de inovação (de 3 para 5). O resto da diferença, muito pequena, justifica-se pela entrada de novos membros no Painel.

A leitura das 25 respostas dá-nos ensinamentos preciosos sobre o modo como cada um dos membros do Painel, avalia o estado da inovação no nosso País, e no Mundo. A mim, como comentador, cabe uma chamada de atenção para as respostas mais frequentes, uma função quase estatística, no respeito (mais absoluto) pela diversidade das opiniões dos membros do Painel. Assim:

  • é amplamente reconhecido o aumento da importância atribuída à inovação no nosso País, tanto por entidades públicas como pela generalidade das empresas;
  • são reconhecidos, e valorizados, no nosso País, o esforço em matéria de educação das gerações mais novas, o aumento do peso da despesa de I&D no PIB (nomeadamente por parte das empresas), e algumas políticas públicas de apoio à inovação (mais à investigação e desenvolvimento do que à inovação em sentido amplo), de que o SIFIDE é o exemplo mais citado;
  • há várias manifestações de saudade pela energia dos primeiros tempos do Plano Tecnológico;
  • os constrangimentos maiores a um melhor resultado das políticas de inovação, em Portugal, continuam a ser atribuídos à forma como o Estado se relaciona com a sociedade em geral (burocracia) e à qualidade dos recursos humanos (stock de população activa). Em termos mais precisos, surgiram referências à desarticulação das políticas (a velha questão do desencontro entre as políticas conduzidas pelo “Ministério da Ciência” e as políticas conduzidas pelo “Ministério da Economia”) e à falta de um foco maior nas actividades de I&D mais próximas do mercado;
  • a crise económica e financeira em que nos encontramos mergulhados, com ênfase nas crescentes dificuldades de crédito para as empresas, mereceu um enorme consenso entre os factos ocorridos no último semestre que mais condicionam, de forma negativa, os resultados do esforço de inovação no nosso País;
  • os tablets/iPad e o uso crescente dos telemóveis, em funções antes desempenhadas pelos computadores, mereceram o maior número de referências no que respeita às grandes inovações à escala mundial; internamente, as referências mais frequentes incidiram nos programas de produção de energias renováveis e de incentivo à mobilidade eléctrica;
  • de forma talvez paradoxal, a crise económica foi apontada como o factor que hoje mais estimula o empreendedorismo em Portugal (a necessidade, em virtude do progressivo escassear de todos os outros “modos de vida”), a que acresce o grau de preparação (cosmopolitismo e mundivivência incluídos) das gerações mais novas; pelo contrário, a aversão ao risco, um pesadíssimo factor cultural, continua a ser apontado como o que mais prejudica o empreendedorismo no nosso País;
  • se tivessem de escolher uma prioridade para uma “agenda de inovação” no nosso País, a maioria dos membros do painel situá-la-ia ainda no domínio da educação (uma educação em sentido amplo, centrada em atitudes e comportamentos, e em experiências e competências, e não apenas em saberes). Emprego, crescimento económico, exportações e empreendedorismo foram também muito referidos;
  • à pergunta “que iniciativa empreendedora lançaria e como a concretizaria” se tivesse, hoje, 25 anos, muitos inquiridos reagiram com a alegação de que o empreendedorismo não é um atributo da idade – podendo ser-se empreendedor em qualquer idade (veja-se, por todas neste sentido, a resposta de Diogo Vasconcelos). Aos 25 anos, se alguma coisa caracteriza os empreendedores, será a falta de experiência e a falta de dinheiro (para além da juventude, naturalmente), empurrando-os para projectos mais capital light;
  • de qualquer modo, num terreno que continua a caracterizar-se pela enorme diversidade de apreciações, tornaram-se inescapáveis as enormes oportunidades hoje oferecidas na intercepção saúde/envelhecimento, uma das áreas de maior capacidade de atracção de empreendedores e de investimento (lá está, não necessariamente muito intensivo em capital);
  • outras áreas de investimento sinalizadas, com potencial de atracção para novos empreendedores, vão do “regresso à agricultura” (floricultura, hortofrutícolas), ou ao mar, ao turismo (nomeadamente cultural), passando pela energia (com uma chamada de atenção para a promoção da eficiência energética) e pelos novos usos das tecnologias da informação (TI para uma gestão mais eficiente da água, da electricidade ou do tráfego).

Seria impensável terminar este comentário sem uma referência ao Diogo Vasconcelos. Não conseguiu responder à primeira edição do Painel (por falta de tempo, numa vida passada sempre a correr) mas, na segunda, confrontado com a nossa insistência, encontrou o tempo suficiente para se confrontar com o projecto – que considerou “muito interessante” e a que respondeu prontamente, com o entusiasmo que também caracterizou tudo o que fez ao longo de toda a sua vida. Depois do entusiasmo juvenil consubstanciado no “despeça-se já”, o Diogo tinha encontrado uma outra bandeira e um novo grande desígnio para o nosso País: fazer de Portugal uma startup nation, como, uma vez mais, não resistiu a mencionar na sua resposta ao nosso Painel.

Na próxima edição, o Painel contará apenas com 24 elementos. Mas nenhum de nós, nem nenhum dos que tomam conhecimento dos resultados deste trabalho, esquecerá o Diogo Vasconcelos – e todos nos sentiremos mais empenhados em realizar o sonho que o moveu, durante uma vida que teve tanto de curta como de intensa, e inspiradora.

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