Daniel Bessa

Director-Geral da COTEC Portugal

Temos connosco os resultados da quarta ronda do Painel de Líderes do Barómetro de Inovação COTEC. Dias atrás, publicámos os resultados estatísticos. Hoje, publicamos os resultados de um exercício de avaliação das políticas de inovação no nosso País, a cargo de 24 personalidades portuguesas conhecidas, e reconhecidas.

Permita-se-me que comece por agradecer aos 24 respondentes: tiveram trabalho e aceitaram o risco de expor as suas opiniões. Em nome da COTEC Portugal, muito obrigado.

Numa escala de 1 (mínimo) a 7 (máximo) o resultado é agora 3,65. Claramente negativo, abaixo dos 4,2, dos 4,3 e dos 4,16 apurados nas três primeiras rondas. As classificações mais frequentes são positivas: seis dos 24 respondentes deram nota 4 e outros seis deram nota 5; os restantes, concentraram-se muito mais nas avaliações negativas do que em avaliações positivas. Da nota 1, atribuída por Peter Villax, à nota 6, atribuída por António Vidigal, houve classificações para todos os gostos, à excepção do 7, em que ninguém votou. Comparadas com as votações anteriores, cerca de um ano atrás, a tendência é de baixa, com destaque para Luís Portela e Paulo Azevedo (desceram ambos de 5 para 3).

Mantém-se uma apreciação positiva sobre as tendências de fundo da inovação e das políticas de inovação no nosso País, com vários respondentes a enfatizarem o caminho percorrido na criação de uma nova consciência sobre a importância e sobre a necessidade da inovação.

O desapontamento vem das alterações mais recentes, marcadas por um constrangimento financeiro avassalador, com destaque para o que atinge a Universidade portuguesa, onde se inicia o processo de inovação mais intensivo em conhecimento. Este clima muito negativo acabou por ofuscar o papel de desenvolvimentos recentes a que vários respondentes se referiram de modo positivo como sejam (i) o foco crescente das empresas portuguesas nos mercados externos e na exportação, e os resultados conseguidos nesta frente; (ii) o início do processo de reforma do capital de risco público, acompanhado de uma expectativa muito positiva; (iii) o anúncio do programa mais empreendedorismo, mais inovação; (iv) os resultados conseguidos por alguns pólos e clusters de competitividade; e (v) a melhoria da balança tecnológica, como se sabe, uma balança de serviços intensivos em conhecimento.

Um dos aspectos que mais impressiona nas respostas das 24 pessoas inquiridas a cada uma das 11 questões colocadas é a sua extrema diversidade. Decorrem daqui implicações de diversa natureza.

A implicação mais positiva, e que temos como uma das contribuições mais relevantes desta ronda do Painel, é a extrema diversidade das respostas obtidas à questão de saber quais são as principais inovações que cada um identifica nos últimos seis meses, tanto em Portugal como no Mundo. São muitíssimas, dando conta de um Mundo que fervilha em inovação, sentida de modo diferente em cada um dos sectores de actividade a que cada um dos nossos 24 respondentes se encontra ligado. Tratando-se de líderes, julgamos que os leitores do Painel fariam bem em prestar a maior atenção a cada uma destas respostas, da forma mais microscópica.

Não estamos a falar de grandes inovações disruptivas, nem isso acontece todos os seis meses, de modo transversal a vários sectores de actividade. Destaque, mesmo assim, para a intensidade dos desenvolvimentos tecnológicos mais recentes em matéria de mobilidade e de conectividade, a que nenhum sector de actividade pode ficar indiferente; e para os desenvolvimentos em vários segmentos do conhecimento biomédico, em particular na genética, podendo afectar também vários sectores de actividade. Com ênfase talvez menor do que no passado recente, continua a haver várias menções aos desenvolvimentos observados na área energética, em particular na área das energias renováveis, sobretudo no nosso País.

A implicação mais negativa da extrema diversidade das 264 (24x11) respostas recebidas é a que decorre para efeitos de formulação de uma política de inovação para o nosso País – evidenciando o caminho extremamente longo que terá de ser percorrido por quem se abalance à construção do consenso mínimo exigido para semelhante empreendimento. Esta questão preocupa-nos, dada a relevância do tema (essa política é necessária, exigindo selectividade), dada a ausência de consenso (evidenciando a inexistência de qualquer trabalho colectivo, para definição de prioridades), e, por maioria de razão, dado o reduzido número de pessoas inquiridas no Painel e a sua relevância tanto nos sectores de actividade em que operam como na sociedade portuguesa em geral.

Perde o seu tempo, em suma, quem pensar que as respostas a este painel poderão indiciar, sequer, prioridades para uma política de inovação no nosso País - para além de formulações mais ou menos óbvias, e quase consensuais, como as relativas à importância da inovação para a alteração do padrão de especialização produtiva do País (a caminho de um modelo mais assente em conhecimento e de muito maior intensidade tecnológica), ou as relativas à importância do esforço de qualificação dos portugueses, nas diversas fases do sistema educativo.

Permito-me destacar, mesmo assim, o relativo consenso observado no que se refere às medidas que os respondentes teriam incluído no Orçamento de Estado para 2013, para estimular as práticas e apostas na inovação ao nível das empresas portuguesas. Por um lado, a prioridade à descida da taxa de imposto sobre os lucros (com mais ou menos medidas de discriminação, algumas das quais manifestamente prejudicadas pela política da União Europeia nestas matérias: empresas exportadoras, empresas intensivas em actividades de I&D, start-ups, PME, empresas de rápido crescimento, etc.). Por outro lado, prioridade aos incentivos à contratação de jovens qualificados, também entendidos como medida de combate ao desemprego, sobretudo ao desemprego jovem.

Mantiveram-se as referências ao papel da crise como factor de estímulo do empreendedorismo, nos mais jovens, e da inovação, nas empresas já existentes, com foco na internacionalização, na contenção de todos os factores de custo e na diversificação das fontes de financiamento. Trata-se de um conjunto de quase lugares-comuns, em especial os que referem o lado virtuoso na crise no fomento do empreendedorismo (não tanto da inovação, nas empresas já existentes).

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